Site sobre a história de Milagres-CE

domingo, 22 de agosto de 2021

CONGOS DE MILAGRES-CE

 Mestre Doca Zacarias 91 anos de reinado

            Neste dia 19 de novembro de 2020, Mestre Doca Zacarias completa noventa e um anos de idade e setenta e um anos de reinado sobre seus Pretinhos de Congo. Mestre Doca reina sobre seus Congos desde 1949 e recebeu de seu pai o comando dos Congos de Milagres a mais antiga manifestação das Congadas Afro-brasileiras no Ceará e uma das mais antigas e bem preservadas do Brasil.

 

Na foto Mestre Doca Zacarias aos vinte e cinco anos em 1954, comandando seus Pretinhos de Congo nas ruas de Milagres, CE. 

            Herdeiro da ancestralidade africana, Mestre Doca Zacarias recebeu de seus antepassados negros (o pai, o avô, o bisavô), trabalhadores do Vale do Riacho dos Porcos que desde o século XVIII formaram a mão-de-obra que produziu a riqueza de Milagres ao longo do século XIX e XX. Milhares de homens e mulheres negras que foram escravizados no Ceará e no Cariri, mas nunca perderam suas identidades africanas e mantiveram suas tradições ancestrais que os colocava diretamente em contato com toda a sua matriz africana.

            A genealogia dos Reis de Congo se perde na história e têm nesses homens, mestres da cultura popular os herdeiros legítimos de um reino ancestral que apesar de haver sido invadido e destruído pelo colonizador branco europeu nos séculos XVI e XVII permaneceu vivo nos inúmeros reinados e rituais de coroação que os príncipes africanos trouxeram na sua memória quando foram obrigados a se transplantar para o Brasil através do tráfico de seres humanos escravizados.

            Mestre Doca Zacarias é um desses príncipes herdeiros dos Reinados de Congo, reina soberano sobre Milagres, cidade do Cariri cearense com 28.316 de acordo com o censo de 2010 dos quais 20.318 são pessoas negras, todos súditos do Rei Negro.

            Nesse dia 20 de novembro, data da morte de outro grande rei negro brasileiro Zumbi do Palmares (ou melhor, Nzambi em língua banta africana) que significa espírito imortal, a população de Milagres tem muito que refletir, pois tendo sido a cidade do Ceará que só emancipou seus escravizados no final de 1886 precisa reconhecer que sua história é a história dos homens e mulheres negras que em colaboração com o branco colonizou o vale ainda nas primeiras décadas do século XVIII, fundou com seu trabalho a Vila de Nossa Senhora dos Milagres em 1846 e garantiu com seu trabalho e suor nas plantações de cana-de-açúcar, algodão e fazendas de gado a prosperidade do município no decorrer de seus cento e setenta e quatro anos de existência.

            Parabenizo Mestre Doca Zacarias pelo seu aniversário e pelo seu longuíssimo reinado ancestral, setenta e um anos como guardião de nossa memória e cultura africana, reinado longo e próspero que vem exaltando Milagres nas universidades, nas escolas, nas teses de doutorado, nos encontros de Mestres do Mundo do Brasil afora.

 


 

Mestre Doca Zacarias e seu Reinado de Congo nas ruas de Milagres.

 


Carlos César Pereira de Sousa – Professor de História da E.E.M. Dona Antônia Lindalva de Morais


ALDEIA DA SERRA DA CACHORRA MORTA EM MILAGRES-CE

 

A Vila de Nossa Senhora dos Milagres e a última aldeia indígena do Ceará

(Aldeia da Serra da Cachorra Morta, 1842-1867).

Por Carlos César Pereira de Sousa

Prof. Da E.E.M. Dona Antônia Lindalva de Morais

            Em 1859 o naturalista Francisco Freire Alemão, o geólogo Guilherme Capanema, o poeta e etnólogo Gonçalves Dias e mais um grupo de astrônomos, botânicos, mineralogistas, zoólogos, geógrafos e etnólogos percorreram a região do Cariri fazendo importantes estudos científicos sobre as riquezas naturais, minerais e sobre as potencialidades agrícolas do sertão do Ceará. E chegaram a Milagres em meados desse ano.

            Apelidada de Comissão das Borboletas, pelos seus detratores na imprensa do Rio de Janeiro, o nome oficial da expedição dado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro era Imperial Comissão Científica e Comissão Exploradora das províncias do Norte, ela foi responsável por apresentar a Província do Ceará ao Império do Brasil, pois naquela época conhecia-se pouco quem eram os cearenses. Os resultados das pesquisas da comissão foram registrados principalmente por Francisco Freire Alemão no seu Diário de Viagem, publicado somente no século XX. E é nesse diário que o cotidiano da cidade de Milagres do final da década de 1850 emerge.

 Dona Dionísia Severo, uma das últimas descendentes dos Kariri-Xocó de Milagres, detentora de prodigiosa memória que guarda a história e a cultura de seu povo. (Foto do autor)

            Percorrendo o Vale do Riacho dos Porcos naquele ano de 1859, os membros da Comissão Científica hospedaram-se na casa do Sr. Franklin de Lima, proprietário de terras em Milagres e Jardim, isto é, no entorno da Chapada do Araripe. Freire Alemão informa que Gonçalves Dias estava particularmente interessado em saber sobre os indígenas da região e logo a conversa recaiu sobre esse assunto e lhes informaram o seguinte sobre a presença destes índios no vale: Ontem a noite em casa do Sr. Franklin de Lima, disse o Sr. Franklin que um resto de tribo que hoje reduzida a uns 50 ou 60 existe ali por Milagres, pertenceu a uma nação que habitava por Piancó, Brejo Verde e Pajeú de Flores”.

         Esse resto de tribo a qual o latifundiário Franklin de Lima refere-se são os Kariri-Xocó, índios aldeados no começo de século XIX pelo Frei Vital de Frascarollo na área fronteiriça dos sertões do Ceará, Paraíba e Pernambuco. Durante a década de 1830 com a dissolução do aldeamento criado pelo frei, os índios ficaram dispersos pela Chapada do Araripe, entre a Vila de Jardim e a Povoação de Milagres. Viveriam por mais de uma década perseguidos pelos proprietários rurais da região e caindo nas emboscadas de seus perseguidores.

            Finalmente em 1842 foi feito um plano para aldeá-los. O governo da Província do Ceará e o Ministério da Justiça solicitaram das câmaras municipais de Crato e Jardim, relatórios sobre a presença indígena na região. As informações dão conta que havia ainda cerca de 160 indivíduos que viviam pelas matas do Cariri, sobrevivendo de roubos de gado e ataque às roças dos proprietários rurais. Para criar esse aldeamento as autoridades do Ceará decidiram encaminhar para um local determinado pelo governo todos os índios que estivessem “soltos” pelo Cariri. E assim foi feito. Xocós e Umães foram os dois principais grupos reunidos, ambos descendiam da grande nação Kariri que aos poucos estava sendo levada a extinção pelos colonizadores do sertão e do Cariri.

            O local escolhido pelo governo cearense para instalar a aldeia foi uma área de terras dentro da Freguesia de Nossa Senhora dos Milagres que havia sido criada por decreto provincial nesse mesmo ano de 1842. As terras da Serra do Ouricuri (Chamadas na época de Serra do Sobradinho entre Cuncas e Milagres) estendendo-se até os altos da Serra do Salgadinho (nas divisas do Ceará com a Paraíba) e áreas dos pés e sopés dessas serras (Barreiros, Pilões, Olho d’Água do Poço, Jitó, Macacos) foram definidas como terras indígenas. Nascia assim a Aldeia da Serra da Cachorra Morta, considerada na época a última aldeia indígena do Ceará.

            A Aldeia da Serra da Cachorra Morta já nasceu sob as disputas dos fazendeiros de Milagres pelas terras consideradas indígenas. Ao longo da década de 1850 enquanto os proprietários de terras do Vale do Riacho dos Porcos procuravam avançar sobre as terras dos índios aldeados, os indígenas procuravam reagir para manter o pouco que lhes restava. Começou a se popularizar em Milagres inúmeras falas que procuravam destruir a imagem do índio aldeado nas proximidades do município. Os senhores ricos da região ajudados pelos boatos começaram a amedrontar a população criando na mentalidade popular a falsa ideia de que aqueles índios eram perigosos, pois segundo afirmavam, eles sequestravam crianças, estupravam mulheres, roubavam cavalos e gado e que eram índios canibais comedores de carne humana. Foi nessa época que a lenda de Sousa Presa, o fundador de Milagres que teria caído nas garras dos “terríveis” Tapuias, a lenda foi criada e se difundiu na oralidade do povo ao longo da segunda metade do século XIX.

Recorte do Mapa da Província do Ceará de 1861, feito por Pedro Thebérge, médico que visitou Milagres e a Aldeia da Serra da Cachorra Morta, observe no detalhe a região da aldeia. (Mapoteca da Biblioteca Nacional)

 

            Perseguidos, os índios se dirigiram à Câmara de Milagres para pedir proteção. Informado dos distúrbios na região, o governo do Ceará nomeou em 1856 um guardião para os índios. A missão de guardar os direitos dos indígenas da Aldeia da Serra da Cachorra Morta ficou nas mãos do Sr. Manoel José de Sousa, que tinha uma propriedade no Sítio Santo Antônio em Milagres e assumiu o trabalho mediante uma pensão anual.

            Mesmo assim as coisas não melhoraram para os índios. Em 1860 voltaram a reclamar para os vereadores de Milagres, dos fazendeiros da região que estavam colocando gado para pastar nas suas roças. Mas o pior aconteceu em 1862, quando uma epidemia de cólera se abateu sobre Milagres e dezenas de índios aldeados morreram inclusive o próprio Manoel José de Sousa. O médico Pedro Theberge que esteve em Milagres nessa época para atender os índios e ver as condições de higiene da cidade onde a população estava morrendo as centenas, relatou que a situação dos aldeados era desesperadora.

            Em 1865 a Câmara de Milagres aprovou uma postura municipal para coibir o avanço dos fazendeiros sobre as terras da Aldeia da Serra da Cachorra Morta, nessa postura estipulava-se uma multa para o fazendeiro que soltasse seu gado na área indígena. Isso de nada valeu, pois o proprietário José Inácio da Silva mandou soltar o gado nas roças dos índios. Denunciado pelo diretor dos índios Manoel José de Sousa Filho (filho do anterior), o latifundiário José Inácio da Silva que era do Cuncas, procurou o juiz de Direito de Milagres, Joaquim do Couto Cartaxo e não só teve a multa perdoada como nada sofreu pela desobediência a lei municipal.

            Os índios se reuniram em grupos de cerca de 80 indivíduos e vieram para sede do município pedir as autoridades de Milagres as necessárias providências. Fizeram um protesto contra os desmandos nas suas terras. A tensão tomou conta da Vila de Nossa Senhora dos Milagres (criada em 1846), pois a população convencida da suposta selvageria dos índios acreditava que eles estavam se preparando para atacar a cidade. Tal notícia do ataque era apenas mais uma ação da campanha difamatória local contra os indígenas aldeados, ele nunca foi de fato planejado, como relatou o diretor da aldeia. No entanto para se proteger e proteger suas roças os índios começaram a atacar o gado que estavam soltando nas suas terras.

            Aliando-se ao delegado de Milagres, que era Jesus da Conceição Cunha, o fazendeiro José Inácio da Silva conseguiu reunir uma tropa de 72 jagunços e no dia 28 de abril de 1867, atacou de surpresa a Aldeia da Serra da Cachorra Morta. Foi um verdadeiro massacre. Aproveitando-se da ausência dos homens que tinham saído para uma caçada, os jagunços mataram crianças e mulheres, estupraram outras e conseguiram aprisionar o índio Mariano, que tinha sido deixado pelos outros para cuidar da comunidade. Levaram Mariano como prisioneiro para um local próximo da aldeia e o amarram esperando que seus companheiros viessem resgatá-lo.

            Quando os outros indígenas se aproximavam para resgatar Mariano, eles eram imediatamente emboscados e executados pelos jagunços. Ao fim do ataque perpetrado pelo fazendeiro José Inácio de Sousa com a conivência das autoridades de Milagres, dezenas de índios tinham sido mortos e os sobreviventes tinham se dispersado nas matas da região. Nos dias que se seguiram o terror tomou conta da vila e os jagunços continuaram suas perseguições aos foragidos. Esse episódio lamentável da história de Milagres ficou conhecido na imprensa da época como Massacre da Serra da Cachorra Morta.


             O juiz de Milagres e o delegado foram questionados pelas autoridades cearenses sobre o fato, mas alegaram que desconheciam o ataque, teria sido o mesmo, planejado pelos fazendeiros. O juiz Joaquim do Couto Cartaxo alegou que na ocasião estava gozando de férias na cidade do Crato, mas iria apurar o caso. Escreveu um longo relatório ao governo do Ceará, mas o caso foi logo esquecido, pois as autoridades cearenses logo informaram ao Ministério da Justiça do Império que não havia mais índios no Ceará.

            O que aconteceu aos sobreviventes do massacre? Notícias da década de 1870 informam que muitos deles voltaram para as terras da aldeia e reconstruíram suas casas e refizeram suas plantações, mas as implacáveis perseguições continuaram, e em 1881 um grupo de 29 índios de Milagres, foi levado até a capital do Ceará para pedir proteção ao presidente da província (o governador), mas este não só não os escutou como mandou embarcá-los para a cidade de Aracati onde segundo a nota publicada no jornal O Cearense foram aldeados com outros índios da região. Aqueles índios que ficaram no Vale do Riacho dos Porcos perderam suas terras definitivamente na década de 1880 e acabaram sendo obrigados a se integrarem ao trabalho nas propriedades rurais locais.

            Os descendentes desses últimos Kariris-Xocós do Ceará ainda estão entre nós. Para escapar as perseguições esses indígenas milagrenses esconderam suas identidades, mas podemos vê-los no cotidiano da cidade, nas áreas rurais do município. Os traços físicos, os hábitos, a cultura e a história dos Xocós fazem parte de Milagres, é a história de Milagres. Estamos precisando fazer um trabalho de emergência étnica no município. Em 2010 somente 3 pessoas se autodeclararam indígenas na cidade, isto mostra o quanto permanece aberta a ferida do Massacre da Serra da Cachorra Morta.

            Dona Dionísia Severo, senhora de 87 anos que vive na comunidade Pau-dos-Ferros, é uma dessas descendentes dos índios Xocós de Milagres que se autodeclara indígena. Detentora de vastíssimos conhecimentos sobre ervas, sobre a mata, sobre a cultura do seu povo, ela é a memória viva da história indígena de Milagres. É uma das figuras mais impressionantes da cidade, sua história e sua vida são relatos maravilhosos sobre o destino de um povo que tentou se manter vivo, que procurou dar continuidade ao seu protagonismo na história do município de Milagres, mas que teve sua cultura e sua memória negadas pela população local, um povo que até agora permanece esquecido e vilipendiado pela sociedade de nossa querida cidade de Milagres.


Dona Dionísia Severo na sua residência, seus saberes indígenas são parte do tesouro do Xocós ainda muito em Milagres.


O HOMEM KARIRI EM MILAGRES-CE

 

O homem Kariri em Milagres-CE

Dona Dionísia Severo e sua Família

Nossa pesquisa iniciou-se em novembro de 2013 a partir do seguinte problema: É possível fazer a história indígena de Milagres-CE? Tal problema surgiu após nosso contato com alguns textos ditos historiográficos sobre essa cidade, como por exemplo, o livro de Antônio Bezerra “Algumas Origens do Ceará” e “Milagres do Cariri” de Flávio Morais que narram à fundação da cidade de Milagres-CE através de uma lenda, essa lenda procura construir uma imagem pouco comum dos indígenas Kariris, isto é, atribui aos Kariris à prática de canibalismo, tais narrativas lendárias construíram visões distorcidas sobre os indígenas que habitaram o Vale do Riacho dos Porcos. Assim direcionamos nossa atenção para os seguintes problemas:

-É possível fazer a história indígena de Milagres-CE e identificar no Vale do Riacho dos Porcos a presença do Homem Kariri?

-Eram os indígenas Kariris canibais ou as lendas em torno do seu canibalismo foram estratégias criadas pelos colonizadores para justificar seu extermínio?

-Quais povos indígenas habitaram de fato o Vale do Riacho dos Porcos antes de sua colonização?

Segundo Antônio Bezerra ao encontrar um cavalheiro da cidade de Milagres em Fortaleza perguntou-lhe qual a origem da cidade de Milagres, ao que esse indivíduo respondeu que por volta do século XVII um português chamado Domingos de Sousa Presa com seus companheiros atravessavam o Vale do Riacho dos Porcos quando foram feitos prisioneiros pelos índios Tapuias, seus companheiros foram logo devorados por esses indígenas, mas Sousa Presa em virtude de sua magreza foi reservado para outra ocasião. Um dia, partindo os homens daquela tribo para uma caçada deixaram Sousa Presa convenientemente amarrado para evitar que fugisse, recomendaram então às mulheres que dele cuidassem, vendo-se em extremo apuros Sousa Presa fez promessa para Nossa Senhora dos Prodígios de que caso se livrasse daquela prisão ergueria uma capela em sua homenagem. Uma das indígenas da tribo apaixonou-se por Sousa Presa e o libertou. Anos depois ele retornaria e extinguiria os Tapuias e ergueria a capela em honra de Nossa Senhora dos Milagres, assim surgiu à cidade que tem o mesmo nome da padroeira.

Nessa lenda estão contidas algumas questões que precisam ser analisadas com atenção. Vejamos: Os indígenas Kariris são classificados aí como Tapuias, nossas pesquisas antropológicas realizadas em campo e nas fontes históricas disponíveis sobre esse grupo indígena verificaram que os Kariris se subdividiam em vários grupos, mas os dois principais que podem ter vivido no Vale do Riacho dos Porcos teriam sido os Kariris-Xocós e os Kariris-Tapuias. Num livro de Antônio Girão Topônimos Indígenas do Ceará, ele afirma que o grupo indígena que viveu no Vale do Riacho dos Porcos teria sido o dos Xocós. Sabemos que esses indígenas procuraram sempre viver a margem do Riacho dos Porcos, ao analisarmos o livro de Joaquim Alves, identificamos a informação de que os indígenas que viviam em Jardim-CE eram os Xocós, sabemos que o Riacho dos Porcos nasce na cidade de Jardim, ou melhor, o Riacho Jardim que nasce na serra de Santana do Cariri é um afluente do Riacho dos Porcos, concluímos que a afirmação de que os Xocós eram o grupo que vivia no Vale do Riacho dos Porcos tinha efetiva procedência. Mas nossas pesquisas antropológicas apresentaram outro problema; num texto da pesquisadora paraibana Adriana Machado ela afirma que o grupo dos Kariri-Tapuias viveu no sertão paraibano até o fim da Guerra dos Bárbaros no século XVII, viviam eles próximo ao Riacho Piranhas e Conceição da Paraíba, ora, tanto São José de Piranhas quanto Conceição fazem limites com Milagres, seriam os indígenas do Vale do Riacho dos Porcos mesmo Tapuias?

Os Tapuias habitavam os sertões paraibanos e zonas do sul do Ceará bem como de Pernambuco, pertencentes à nação Kariri, foi esse grupo que nas duas últimas décadas do século XVII apresentou maior resistência à dominação dos colonizadores portugueses que naquele momento procuravam escravizá-los e ocupar suas terras. Organizaram a resistência que se transformou numa grande guerra civil que assolaria os sertões do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte por quase uma década.

            Esse conflito entre Tapuias e colonizadores ficou conhecido posteriormente como Guerra dos Bárbaros e mais recentemente como Confederação dos Kariris, ambos os nomes, entretanto inconsistentes e anacrônicos. Esse evento marcou de forma decisiva a história da colonização do interior nordestino que permanece vivo na memória coletiva através dos topônimos: “Riacho do Sangue,” “índio Morto,” “Custódia”, mas principalmente nas lendas e mitos que mantém viva a memória daquela grande tragédia, verdadeiro genocídio perpetrado pelos colonizadores nos sertões nordestinos.

            Essas lendas em sua maior parte criadas pelos vencedores procuram descaracterizar o tapuia, qualificando-o de bárbaros, ignorantes, covardes, selvagens comedores de gente, ladrões, tratantes e desconfiados. São atributos evidentemente falsos nenhum deles correspondendo à realidade étnica desses indígenas.

            Uma dessas lendas que se diz ser característica muito comum atribuída a esses indígenas e criadas nessa época é aquela que maior escândalo causava na mentalidade cristã do período, a antropofagia.

            Esse ritual praticado principalmente, mas não exclusivamente pelos indígenas Tupinambás consistia no aprisionamento do chefe guerreiro da tribo derrotada nas guerras intertribais muito comuns, esse prisioneiro recebia honras da tribo vencedora e para ele era um privilégio servir de alimento para aqueles que o venceram numa luta justa, afinal os nossos indígenas não moviam guerras para conquistar novos territórios, escravos ou riquezas, eram guerras de vingança. Aquele guerreiro derrotado seria comido pelos vencedores e mais tarde quem sabe seria vingado por membros de sua família ou tribo.

            Assim o ritual antropofágico não consistia na cultura indígena uma atrocidade como supunha a mentalidade cristã portuguesa. Mas a acusação de selvageria foi muitas vezes utilizada pelos colonizadores para exterminar povos inteiros, assim aconteceu aos Tapuias que foram acusados de praticar canibalismo contra os brancos colonizadores que vinham tomar posse das terras do sertão.

            Documentos do período, notadamente os textos do Padre Mamiani primeiro catequizador dos Kariris e de frei Bernardo de Nantes que esteve durante anos com esses indígenas, registrando uma grande variedade de seus costumes, crenças e ideias, informam que os Kariris não praticavam a antropofagia. Isto é, segundo esses padres catequistas não havia entre os grupos indígenas Kariris traços da prática do ritual antropofágico, havendo, entretanto segundo eles, outra prática pouco usual entre os outros povos indígenas do litoral, a necrofagia, a prática consistia em comer o cadáver do chefe da sua própria tribo em ritual complexo e de explicações pouco claras.

            Provavelmente a antropofagia atribuída aos Tapuias pelos colonizadores seja uma acusação imputada contra o grupo para justificar seu extermínio pelas bandeiras e sua posterior aculturação por meio da catequização.  Os Tapuias resistiram a ocupação de suas terras e é provável que tenha combatido muitos dos que para cá vieram com a intenção de tomar seu espaço, certamente fizeram prisioneiros e procuraram negociar com esses usurpadores a paz, isso pode ser comprovado por meio dos documentos da época que procuram relatar o árduo processo de ocupação dos sertões.

            Os Xocós habitavam os vales da Chapada do Araripe, principalmente os brejos, não eram afeitos ao nomadismo como demonstram os vestígios materiais de sua cultura. Enterravam seus mortos em urnas funerárias reunidas em cemitérios indígenas como os encontrados nas cidades de Jardim, Brejo Santo, Milagres.

            Teriam recebido esse nome devido a sua estatura e tamanho alongado de seus membros inferiores que os assemelhava aos socós, aves comuns nos brejos do vale. Acreditávamos que eram um desmembramento do grupo Tapuia do qual viviam muito próximo. Esse grupo e o dos Tapuias estão diretamente ligados a pré-história da cidade de Milagres.

            Contudo ao contrário do que até então pensávamos, nossas pesquisas nos levaram a outras conclusões, os Xocós predominaram no Vale do Riacho dos Porcos a partir do século XVIII, procuramos compreender que motivos haviam levado a esse predomínio do grupo Xocó no período, então ao estudarmos documentos da época e estudos recentes sobre a tribo dos Kariris, concluímos com outros estudiosos que os Xocós são um subgrupo dos Kariris, isto é, eles são uma fusão dos Kariris com outros povos indígenas do sertão nordestino fusão esta provocada pelos colonizadores após a Guerra dos Bárbaros, essa foi a estratégia adotada pelo colonizador para domar a nação Kariri.

            Ao prosseguir com nossas investigações antropológicas verificamos com antropólogo Luís Alvim da Universidade Federal da Bahia que os Xocós são na verdade uma fusão forçada de vários grupos indígenas sobreviventes da Guerra dos Bárbaros, com os Kariris, isto é, o subgrupo Xocó é a união provocada pelos colonizadores para melhor dominar os Kariris a partir do século XVIII. Concluímos que os dois grupos podem ter vivido em momentos diferentes no Vale do Riacho dos Porcos, sendo os Xocós o último grupo a passar por aqui, desaparecendo somente no século XIX.

Os povos Kariris são originários da Amazônia e teriam migrado para cá por volta de 1500 anos atrás seguindo o curso dos rios Araguaia, Tocantins e Parnaíba até chegarem ao Vale do Rio São Francisco. Habitavam os sertões nordestinos, eram nômades, caçadores, e segundo os estudos etnológicos praticavam a coleta de frutos e raízes, além de sepultarem seus mortos em urnas funerárias com oferendas dentro das igaçabas. No século XVII quando os portugueses procuraram colonizar os sertões tiveram que enfrentar a resistência desses num conflito que durou quase oitenta anos que ficou conhecido como Guerra dos Bárbaros. Somente no século XVIII, começaram a ser aldeados pelos frades capuchinos, dos quais se destacam o padre Augusto César Mamiani e o frei Martim de Nantes. Esses dois frades deixaram escritos inúmeros textos que servem de base para o estudo das mentalidades e da cultura material e imaterial dos Kariris.

A etno-história nos permitiu fazer nossas investigações antropológicas e a história das mentalidades compreender a estrutura de pensamento que deram origem a lenda sobre a fundação de Milagres-CE. Passemos então a análise da lenda. Ao estudar as fontes históricas deixadas pelo Frei Martim de Nantes “A Primeira e a Segunda Relação de uma Viagem ao São Francisco” nos deparamos com um texto que descreve de forma minuciosa o quotidiano dos indígenas Kariris. O frei descreve a vida política, doméstica, religiosa, econômica e as formas de pensamento dos Kariris. A certa altura do seu livro, Martim de Nantes salienta que ao contrário dos Tupis e Tupinambás da costa brasileira os Kariris não praticavam a antropofagia. Isto muito nos interessou, pois a lenda de Milagres afirma que os Tapuias eram canibais.

Algumas tribos que habitavam o Brasil antes da colonização portuguesa praticavam o ritual antropofágico, esse ritual tinha uma função social dentro do grupo, acontecia principalmente quando uma tribo movia guerra de vingança contra outra, a derrotada era obrigada a entregar aos vencedores seu melhor guerreiro como prisioneiro, esse guerreiro seria comido pelos homens da tribo vencedora que acreditavam absorver a força desse guerreiro inimigo e preparar-se para nova guerra de vingança que os familiares desse seguramente faria contra eles. O canibalismo acontece quando uma pessoa ou um grupo alimenta-se de forma deliberada de carne humana.

 Os indígenas brasileiros não eram canibais, não prendiam seres humanos para se alimentarem de sua carne, não amarravam o prisioneiro para engordá-lo como a lenda da origem de Milagres afirma, o ato de comer carne humana num ritual significava uma ação que mantinha a tribo unida em torno de um ideal de força e coragem. Os prisioneiros que passariam pelo ritual antropofágico ficavam soltos nas aldeias se fugissem eram covardes e não valiam a pena serem mortos no ritual antropofágico. O estudo dessas mentalidades bastaria para concluirmos pela falsificação da lenda. Mas o livro de Martim de Nantes nos esclareceu definitivamente: os Kariris não eram canibais, nem tampouco praticavam o ritual antropofágico, segundo o frei capuchinho o ritual comum entre os Kariris era a necrofagia, comiam os cadáveres de seus chefes mortos e as mães comiam o cadáver de seus filhos que morriam quando crianças, outro ritual, com outro significado etnológico e estrutura mental diferente. Portanto, a lenda de Sousa Presa não possui sustentação antropológica nem tampouco histórica.

A continuidade da nossa pesquisa tinha agora como principal objetivo encontrar vestígios da presença do Homem Kariri no Vale do Riacho dos Porcos. Para realizar tais investigações nos apropriamos de algumas das ferramentas de pesquisa da arqueologia, pois através dessa ciência poderíamos estudar os vestígios da presença desses indígenas no nosso vale. O resultado dessas investigações foi à localização, identificação e estudo de elementos da cultura material dos indígenas Kariris nos arredores do vale. No distrito do Rosário há 2 km da sede do município identificamos a existência de pinturas rupestres gravadas em pedra, no mesmo distrito pudemos encontrar após explorações minuciosas no espaço ainda não oficialmente reconhecido do Sítio Arqueológico do Rosário fragmentos de indústria lítica de pedra lascada e polida: pontas de lança, batedor, exemplo de uma escultura em pedra possivelmente de um ídolo indígena ainda não identificado por nós, restos cerâmicos e uma oficina lítica em estado avançado de degradação devido a falta de interesse público.

No sítio Gameleira, mais especificamente na localidade Engenho Veneza, a proprietária do dito engenho, professora Ivana Paula havia encontrado o que informara-se ser uma machadinha de pedra polida, fomos fazer o devido reconhecimento do material lítico, reconhecemos tratar-se efetivamente de material indígena, uma machadinha de pedra polida, fizemos outras pesquisas pelo Engenho Veneza e encontramos nos arredores da propriedade uma pedra de amolar indígena, material polido do período neolítico, bem como materiais provenientes do período histórico, elaborados em metal e que datamos após nossos estudos com idade aproximada de 100 anos. Além desses materiais líticos e históricos identificamos no dito Engenho Veneza vasto material cerâmico que reconhecemos ser possivelmente de origem indígena.

Outros espaços importantes para as nossas pesquisas arqueológicas foram: O sítio Poço do Dinheiro, o sítio Capim onde identificamos pinturas rupestres, o sítio Olho d’água dos Cavalos onde identificamos uma oficina lítica e o sítio Olho d’água da Igreja onde encontramos vestígios de uma antiga oficina Lítica. Mas a maior descoberta viria ao fazermos pesquisa de campo no sítio Santa Catarina. Fomos informados por uma das pesquisadoras do grupo, a aluna-pesquisadora Ana Maria Nunes Silva que nessa localidade há 19 km da sede do município vivia uma senhora e sua família em relativo isolamento, e que essa senhora conhecia uma variedade extraordinária de plantas medicinais e que com esse conhecimento chegava a sustentar sua própria família. Passamos então a dirigir nossa atenção para o estudo dessa família e do espaço em que estavam inseridos.

As provas arqueológicas da presença do homem Kariri em Milagres-CE respondia já a nossa pergunta inicial sobre a presença dos indígenas Kariris no Vale do Riacho dos Porcos, com efeito, sabíamos já algumas coisas importantes: que o homem Kariri viveu no Riacho dos Porcos até meados do século XIX; que dois grupos bem distintos passaram por aqui, inicialmente os Tapuias, um grupo Kariri que habitou o sertão Paraibano e as extremas do Vale do Riacho dos Porcos e posteriormente os Xocós, grupo surgido da fusão de outros indígenas com Kariris; que não eram os Kariris canibais nem tampouco antropófagos como relata a lenda da origem de Milagres-CE; que os vestígio, pinturas rupestres, indústria lítica e restos cerâmicos encontrados no Vale do Riacho dos Porcos comprovavam a presença dos Kariris nesse vale. Agora estávamos diante da possibilidade de encontrar uma remanescente dos Kariris vivendo nos arredores do vale.

Dona Dionísia Severo tem mais de setenta anos, mora no sítio Santa Catarina, localidade Pau-dos-Ferros, 19 km de Milagres com seu esposo Chico Hermenegildo, seu filho Cícero Dionísio e mais uma filha casada e outro filho também casados, esses últimos vivem em locais específicos da propriedade, mas sempre nos arredores da casa principal que pertence aos pais. Dona Dionísia apresenta características semelhantes àquelas descritas por Batista Aragão no seu livro “índios do Ceará” com relação aos Xocós, como foi dito acima, o nome Xocó provém de uma ave pernalta que habita os charcos e brejos do Cariri, o socó, essa ave com membros muito longos teria dado origem ao termo Xocó porque esses indígenas apresentavam membros inferiores longos, bem como o pescoço e o tronco. Dona Dionísia é alta, tronco comprido, membros inferiores longos, pescoço também longo, cabeça pequena, possui uma distorção lombar descrita por Thomás Pompeu Sobrinho, como uma ocorrência comum aos subgrupos humanos, podíamos concluir que Dona Dionísia era descendente dos Xocós? Seria Dona Dionísia uma remanescente dos indígenas que habitaram o Vale do Riacho dos Porcos?

Para responder tais perguntas decidíamos mais uma vez recorrer a Antropologia e a Etno-história da terceira geração dos Analles. Pedimos a Dona Dionísia que contasse a origem de sua família de acordo com a sua memória mais antiga. Assim ela nos relatou que a sua avó não era originária de Milagres, sua avó viera de Santana do Cariri para Aurora e somente na década de 1940 seu pai se fixara ali na localidade de Pau-dos-Ferros. Pedimos que se detivesse na história de sua avó, então ela nos contou que a avó relatava que sua mãe (a bisavó de Dona Dionísia) havia sido capturada, quer dizer, caçada por fazendeiros na serra de Santana, isto é, Dona Dionísia afirmava que sua bisavó era uma índia caçada nas matas com cães atrás e tudo. Foi levada prisioneira para ser criada de fazendeiros, sua avó havia deixado a serra de Santana e através da chapada do Araripe tinha ido viver em Aurora de onde na década de 1940 seu pai viera com toda a família viver na terra dos Arruda da Catirina onde ganharam o pedaço de terra onde hoje vivem. A ligação de Dona Dionísia e sua família com a serra de Santana muito nos surpreendeu, pois tanto Joaquim Alves, quanto Thomás Pompeu Sobrinho afirmam que é ali onde nasce o Riacho dos Porcos que recebe água do Riacho Jardim que corre através daquela serra, é aí que os mesmos estudiosos identificam como o espaço habitado pelos Xocós.

Passamos a estudar o cotidiano e espaço habitado pela família de Dona Dionísia Severo. A casa é de taipa, praticamente não há divisórias nos cômodos, os animais de criação: porcos, galinhas, cabras, jumentos, e os domésticos: gatos e cães convivem naturalmente com as pessoas, a maioria deles dentro de casa sem nenhum empecilho. Os utensílios domésticos usados são panelas, pratos e potes de barro, fogão a lenha, pilão, moinho e um monjolo de madeira. O filho de Dona Dionísia, Cícero Dionísio é um indivíduo tristonho, olhar vivo, mas extremamente calado, grandes traços indígenas, assim como sua mãe, cabelos pretos lisos e segundo a mãe possui humor instável o que o impede de casar logo como os outros. O chefe dessa família é um caboclo alagoano, atarracado, mãos grossas, pele queimada, calado e sempre pelos cantos, todos eles são agricultores, vivem do que tiram da terra, do que criam e das ervas de Dona Dionísia.

O conhecimento de Dona Dionísia sobre ervas curativas é vastíssimo: Conhece mais de 30 tipos de ervas, para inúmeras doenças do corpo. Perguntamos a ela de onde provinham tais conhecimentos e ficamos surpresos ao vê-la afirmar que esses conhecimentos foram transmitidos para ela por certos caboclos que vivem nas matas. Ela nos referiu cerca de 12 caboclos bons, posto que haja dito que existiam outros tanto bons quanto maus.

 Segundo Dona Dionísia tudo começou quando ela passou a sentir problemas de saúde quando estava grávida de sua filha, sem poder se curar sozinha procurou uma Cabocla chamada Rita, lá na Santa Catirina e ela lhe ensinou como fazer para ficar boa, fez o que a cabocla lhe ensinou, se curou, mas depois ouvia os caboclos da mata lhe pedirem que ensinasse o que sabia para as outras pessoas também se curarem. Assim, uma vez que soube que tinha uma pessoa doente no Podimirim, isto é, em Milagres, foi até a mata, coletou umas cascas de gogoia que o caboclo João da Mata e Santa Joana Guerreira lhe ensinaram que era boa pra doença daquela pessoa, levou pra ela, ela ficou boa dos peitos logo.

Desde então sempre que alguém precisava os caboclos ensinavam pra ela qual remédio pegar na mata e levar para curar o doente. Foi assim que começou essa prática curativa de Dona Dionísia. Acabou então se tornando a curandeira mais importante de Milagres, Dona Dionísia e suas ervas curativas acabaram se tornando uma parte da cultura e das mentalidades de Milagres.

Nosso passo seguinte foi buscar consolidar nossas pesquisas e comprovar a ascendência indígena de Dona Dionísia e sua família. Ao pesquisar sobre os relatos do viajante George Gardner, um escocês que percorreu os sertões nordestinos e o Cariri cearense nos meados do século XIX, encontramos uma passagem muito significativa para nossa pesquisa, Gardner descrevia sua convivência por volta de 1840-1850 com os últimos indígenas Kariris da região. Segundo ele, ao passar pelo Cariri por volta de 1853 encontrou ainda cerca de 63 indivíduos Kariris vivendo nos arredores dos vilarejos e cidades da região, mas quando retornou por aqui cerca de sete anos depois foi informado que esses haviam morrido durante a epidemia de cólera que grassou na região, mas posteriormente  soube ele que esses indígenas haviam sido remanejados para outra região do Ceará, descobriu-se mais tarde que os indígenas do Vale do Kariri haviam sido remanejados pelo governo da província do Ceará para o sertão central.

José Ayrton no seu livro “Ceará, Nossa História” localiza a presença de 116 indivíduos remanescentes dos Kariris no município de Crateús no Sertão Central, então podemos concluir, que os Kariris não foram extintos no século XIX como até então se acreditava, eles foram apenas removidos de sua terra, isso aconteceu para facilitar a expropriação de suas propriedades, pois como sabemos para dar amparo legal a esse roubo das terras indígenas o governo da província do Ceará declarou na década de 1860 não haver mais índios no Ceará. Recentemente uma pesquisadora de São Paulo em parceria com a estudiosa Roseane Limaverde da Fundação Casa Grande de Nova Olinda-CE, identificou vivendo no Sítio Baixa Dantas no Crato uma família composta por mais de quarenta membros que são remanescentes dos Kariris. Podemos concluir então que Dona Dionísia e sua família são legítimos remanescentes dos Kariris ainda presentes no Vale do Riacho dos Porcos, e fazemos isso baseados em nossos estudos antropológicos, bem como em nossas investigações de Etno-História e das mentalidades.

Assim, mediante nossas pesquisas antropológicas e arqueológicas pudemos identificar a presença de vestígios do homem Kariri em Milagres-CE e constatar que Tapuias e Xocós habitaram O Vale do Riacho dos Porcos antes da Colonização e durante esta. Verificamos a falsificabilidade da lenda da origem de Milagres, constatando que não eram os indígenas Kariris nem canibais nem tampouco praticantes dos rituais antropofágicos.

Assim pudemos responder nossas três indagações iniciais e constatamos ser possível escrever a história indígena do Vale do Riacho dos Porcos sem recorrer a lendas ou discursos sem sustentação científica que procurem apenas criar uma falsa imagem dos indígenas desse vale. Podemos concluir que a história da cidade de Milagres pode ser agora escrita com a segurança de um método histórico confiável, em nosso caso o da terceira geração dos Analles, a etno-história e a história das mentalidades que nos acompanhou durantes esse início de percurso.

CONGOS DE MILAGRES-CE

  Mestre Doca Zacarias 91 anos de reinado             Neste dia 19 de novembro de 2020, Mestre Doca Zacarias completa noventa e um anos de...