O
homem Kariri em Milagres-CE
 |
Dona Dionísia Severo e sua Família
|
Nossa pesquisa iniciou-se em novembro de 2013 a
partir do seguinte problema: É possível fazer a história indígena de Milagres-CE?
Tal problema surgiu após nosso contato com alguns textos ditos historiográficos
sobre essa cidade, como por exemplo, o livro de Antônio Bezerra “Algumas
Origens do Ceará” e “Milagres do Cariri” de Flávio Morais que narram à fundação
da cidade de Milagres-CE através de uma lenda, essa lenda procura construir uma
imagem pouco comum dos indígenas Kariris, isto é, atribui aos Kariris à prática
de canibalismo, tais narrativas lendárias construíram visões distorcidas sobre
os indígenas que habitaram o Vale do Riacho dos Porcos. Assim direcionamos
nossa atenção para os seguintes problemas:
-É possível fazer a história indígena de
Milagres-CE e identificar no Vale do Riacho dos Porcos a presença do Homem
Kariri?
-Eram os indígenas Kariris canibais ou as lendas em
torno do seu canibalismo foram estratégias criadas pelos colonizadores para justificar
seu extermínio?
-Quais povos indígenas habitaram de fato o Vale do
Riacho dos Porcos antes de sua colonização?
Segundo Antônio Bezerra ao encontrar um cavalheiro
da cidade de Milagres em Fortaleza perguntou-lhe qual a origem da cidade de
Milagres, ao que esse indivíduo respondeu que por volta do século XVII um
português chamado Domingos de Sousa Presa com seus companheiros atravessavam o
Vale do Riacho dos Porcos quando foram feitos prisioneiros pelos índios
Tapuias, seus companheiros foram logo devorados por esses indígenas, mas Sousa
Presa em virtude de sua magreza foi reservado para outra ocasião. Um dia,
partindo os homens daquela tribo para uma caçada deixaram Sousa Presa
convenientemente amarrado para evitar que fugisse, recomendaram então às mulheres
que dele cuidassem, vendo-se em extremo apuros Sousa Presa fez promessa para
Nossa Senhora dos Prodígios de que caso se livrasse daquela prisão ergueria uma
capela em sua homenagem. Uma das indígenas da tribo apaixonou-se por Sousa
Presa e o libertou. Anos depois ele retornaria e extinguiria os Tapuias e
ergueria a capela em honra de Nossa Senhora dos Milagres, assim surgiu à cidade
que tem o mesmo nome da padroeira.
Nessa lenda estão contidas algumas questões que
precisam ser analisadas com atenção. Vejamos: Os indígenas Kariris são
classificados aí como Tapuias, nossas pesquisas antropológicas realizadas em
campo e nas fontes históricas disponíveis sobre esse grupo indígena verificaram
que os Kariris se subdividiam em vários grupos, mas os dois principais que
podem ter vivido no Vale do Riacho dos Porcos teriam sido os Kariris-Xocós e os
Kariris-Tapuias. Num livro de Antônio Girão Topônimos Indígenas do Ceará, ele
afirma que o grupo indígena que viveu no Vale do Riacho dos Porcos teria sido o
dos Xocós. Sabemos que esses indígenas procuraram sempre viver a margem do
Riacho dos Porcos, ao analisarmos o livro de Joaquim Alves, identificamos a
informação de que os indígenas que viviam em Jardim-CE eram os Xocós, sabemos
que o Riacho dos Porcos nasce na cidade de Jardim, ou melhor, o Riacho Jardim
que nasce na serra de Santana do Cariri é um afluente do Riacho dos Porcos,
concluímos que a afirmação de que os Xocós eram o grupo que vivia no Vale do
Riacho dos Porcos tinha efetiva procedência. Mas nossas pesquisas
antropológicas apresentaram outro problema; num texto da pesquisadora paraibana
Adriana Machado ela afirma que o grupo dos Kariri-Tapuias viveu no sertão
paraibano até o fim da Guerra dos Bárbaros no século XVII, viviam eles próximo
ao Riacho Piranhas e Conceição da Paraíba, ora, tanto São José de Piranhas
quanto Conceição fazem limites com Milagres, seriam os indígenas do Vale do
Riacho dos Porcos mesmo Tapuias?
Os Tapuias habitavam os sertões paraibanos e zonas do sul do
Ceará bem como de Pernambuco, pertencentes à nação Kariri, foi esse grupo que
nas duas últimas décadas do século XVII apresentou maior resistência à
dominação dos colonizadores portugueses que naquele momento procuravam escravizá-los
e ocupar suas terras. Organizaram a resistência que se transformou numa grande
guerra civil que assolaria os sertões do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte
por quase uma década.
Esse
conflito entre Tapuias e colonizadores ficou conhecido posteriormente como
Guerra dos Bárbaros e mais recentemente como Confederação dos Kariris, ambos os
nomes, entretanto inconsistentes e anacrônicos. Esse evento marcou de forma
decisiva a história da colonização do interior nordestino que permanece vivo na
memória coletiva através dos topônimos: “Riacho do Sangue,” “índio Morto,”
“Custódia”, mas principalmente nas lendas e mitos que mantém viva a memória
daquela grande tragédia, verdadeiro genocídio perpetrado pelos colonizadores
nos sertões nordestinos.
Essas
lendas em sua maior parte criadas pelos vencedores procuram descaracterizar o
tapuia, qualificando-o de bárbaros, ignorantes, covardes, selvagens comedores
de gente, ladrões, tratantes e desconfiados. São atributos evidentemente falsos
nenhum deles correspondendo à realidade étnica desses indígenas.
Uma dessas
lendas que se diz ser característica muito comum atribuída a esses indígenas e
criadas nessa época é aquela que maior escândalo causava na mentalidade cristã
do período, a antropofagia.
Esse ritual
praticado principalmente, mas não exclusivamente pelos indígenas Tupinambás
consistia no aprisionamento do chefe guerreiro da tribo derrotada nas guerras
intertribais muito comuns, esse prisioneiro recebia honras da tribo vencedora e
para ele era um privilégio servir de alimento para aqueles que o venceram numa luta
justa, afinal os nossos indígenas não moviam guerras para conquistar novos
territórios, escravos ou riquezas, eram guerras de vingança. Aquele guerreiro
derrotado seria comido pelos vencedores e mais tarde quem sabe seria vingado
por membros de sua família ou tribo.
Assim o
ritual antropofágico não consistia na cultura indígena uma atrocidade como
supunha a mentalidade cristã portuguesa. Mas a acusação de selvageria foi
muitas vezes utilizada pelos colonizadores para exterminar povos inteiros,
assim aconteceu aos Tapuias que foram acusados de praticar canibalismo contra
os brancos colonizadores que vinham tomar posse das terras do sertão.
Documentos
do período, notadamente os textos do Padre Mamiani primeiro catequizador dos
Kariris e de frei Bernardo de Nantes que esteve durante anos com esses
indígenas, registrando uma grande variedade de seus costumes, crenças e ideias,
informam que os Kariris não praticavam a antropofagia. Isto é, segundo esses
padres catequistas não havia entre os grupos indígenas Kariris traços da
prática do ritual antropofágico, havendo, entretanto segundo eles, outra
prática pouco usual entre os outros povos indígenas do litoral, a necrofagia, a
prática consistia em comer o cadáver do chefe da sua própria tribo em ritual
complexo e de explicações pouco claras.
Provavelmente
a antropofagia atribuída aos Tapuias pelos colonizadores seja uma acusação
imputada contra o grupo para justificar seu extermínio pelas bandeiras e sua
posterior aculturação por meio da catequização.
Os Tapuias resistiram a ocupação de suas terras e é provável que tenha
combatido muitos dos que para cá vieram com a intenção de tomar seu espaço,
certamente fizeram prisioneiros e procuraram negociar com esses usurpadores a
paz, isso pode ser comprovado por meio dos documentos da época que procuram
relatar o árduo processo de ocupação dos sertões.
Os Xocós
habitavam os vales da Chapada do Araripe, principalmente os brejos, não eram
afeitos ao nomadismo como demonstram os vestígios materiais de sua cultura.
Enterravam seus mortos em urnas funerárias reunidas em cemitérios indígenas
como os encontrados nas cidades de Jardim, Brejo Santo, Milagres.
Teriam
recebido esse nome devido a sua estatura e tamanho alongado de seus membros
inferiores que os assemelhava aos socós, aves comuns nos brejos do vale.
Acreditávamos que eram um desmembramento do grupo Tapuia do qual viviam muito
próximo. Esse grupo e o dos Tapuias estão diretamente ligados a pré-história da
cidade de Milagres.
Contudo ao
contrário do que até então pensávamos, nossas pesquisas nos levaram a outras
conclusões, os Xocós predominaram no Vale do Riacho dos Porcos a partir do
século XVIII, procuramos compreender que motivos haviam levado a esse
predomínio do grupo Xocó no período, então ao estudarmos documentos da época e
estudos recentes sobre a tribo dos Kariris, concluímos com outros estudiosos
que os Xocós são um subgrupo dos Kariris, isto é, eles são uma fusão dos
Kariris com outros povos indígenas do sertão nordestino fusão esta provocada
pelos colonizadores após a Guerra dos Bárbaros, essa foi a estratégia adotada
pelo colonizador para domar a nação Kariri.
Ao
prosseguir com nossas investigações antropológicas verificamos com antropólogo
Luís Alvim da Universidade Federal da Bahia que os Xocós são na verdade uma
fusão forçada de vários grupos indígenas sobreviventes da Guerra dos Bárbaros,
com os Kariris, isto é, o subgrupo Xocó é a união provocada pelos colonizadores
para melhor dominar os Kariris a partir do século XVIII. Concluímos que os dois
grupos podem ter vivido em momentos diferentes no Vale do Riacho dos Porcos,
sendo os Xocós o último grupo a passar por aqui, desaparecendo somente no
século XIX.
Os povos Kariris são originários da Amazônia e
teriam migrado para cá por volta de 1500 anos atrás seguindo o curso dos rios
Araguaia, Tocantins e Parnaíba até chegarem ao Vale do Rio São Francisco.
Habitavam os sertões nordestinos, eram nômades, caçadores, e segundo os estudos
etnológicos praticavam a coleta de frutos e raízes, além de sepultarem seus
mortos em urnas funerárias com oferendas dentro das igaçabas. No século XVII
quando os portugueses procuraram colonizar os sertões tiveram que enfrentar a
resistência desses num conflito que durou quase oitenta anos que ficou conhecido
como Guerra dos Bárbaros. Somente no século XVIII, começaram a ser aldeados
pelos frades capuchinos, dos quais se destacam o padre Augusto César Mamiani e
o frei Martim de Nantes. Esses dois frades deixaram escritos inúmeros textos
que servem de base para o estudo das mentalidades e da cultura material e
imaterial dos Kariris.
A etno-história nos permitiu fazer nossas
investigações antropológicas e a história das mentalidades compreender a
estrutura de pensamento que deram origem a lenda sobre a fundação de
Milagres-CE. Passemos então a análise da lenda. Ao estudar as fontes históricas
deixadas pelo Frei Martim de Nantes “A Primeira e a Segunda Relação de uma
Viagem ao São Francisco” nos deparamos com um texto que descreve de forma
minuciosa o quotidiano dos indígenas Kariris. O frei descreve a vida política,
doméstica, religiosa, econômica e as formas de pensamento dos Kariris. A certa
altura do seu livro, Martim de Nantes salienta que ao contrário dos Tupis e
Tupinambás da costa brasileira os Kariris não praticavam a antropofagia. Isto
muito nos interessou, pois a lenda de Milagres afirma que os Tapuias eram
canibais.
Algumas tribos que habitavam o Brasil antes da
colonização portuguesa praticavam o ritual antropofágico, esse ritual tinha uma
função social dentro do grupo, acontecia principalmente quando uma tribo movia
guerra de vingança contra outra, a derrotada era obrigada a entregar aos
vencedores seu melhor guerreiro como prisioneiro, esse guerreiro seria comido
pelos homens da tribo vencedora que acreditavam absorver a força desse
guerreiro inimigo e preparar-se para nova guerra de vingança que os familiares
desse seguramente faria contra eles. O canibalismo acontece quando uma pessoa
ou um grupo alimenta-se de forma deliberada de carne humana.
Os
indígenas brasileiros não eram canibais, não prendiam seres humanos para se
alimentarem de sua carne, não amarravam o prisioneiro para engordá-lo como a
lenda da origem de Milagres afirma, o ato de comer carne humana num ritual
significava uma ação que mantinha a tribo unida em torno de um ideal de força e
coragem. Os prisioneiros que passariam pelo ritual antropofágico ficavam soltos
nas aldeias se fugissem eram covardes e não valiam a pena serem mortos no
ritual antropofágico. O estudo dessas mentalidades bastaria para concluirmos
pela falsificação da lenda. Mas o livro de Martim de Nantes nos esclareceu
definitivamente: os Kariris não eram canibais, nem tampouco praticavam o ritual
antropofágico, segundo o frei capuchinho o ritual comum entre os Kariris era a
necrofagia, comiam os cadáveres de seus chefes mortos e as mães comiam o
cadáver de seus filhos que morriam quando crianças, outro ritual, com outro
significado etnológico e estrutura mental diferente. Portanto, a lenda de Sousa
Presa não possui sustentação antropológica nem tampouco histórica.
A continuidade da nossa pesquisa tinha agora como
principal objetivo encontrar vestígios da presença do Homem Kariri no Vale do
Riacho dos Porcos. Para realizar tais investigações nos apropriamos de algumas
das ferramentas de pesquisa da arqueologia, pois através dessa ciência
poderíamos estudar os vestígios da presença desses indígenas no nosso vale. O
resultado dessas investigações foi à localização, identificação e estudo de
elementos da cultura material dos indígenas Kariris nos arredores do vale. No
distrito do Rosário há 2 km da sede do município identificamos a existência de
pinturas rupestres gravadas em pedra, no mesmo distrito pudemos encontrar após
explorações minuciosas no espaço ainda não oficialmente reconhecido do Sítio
Arqueológico do Rosário fragmentos de indústria lítica de pedra lascada e
polida: pontas de lança, batedor, exemplo de uma escultura em pedra
possivelmente de um ídolo indígena ainda não identificado por nós, restos
cerâmicos e uma oficina lítica em estado avançado de degradação devido a falta
de interesse público.
No sítio Gameleira, mais especificamente na
localidade Engenho Veneza, a proprietária do dito engenho, professora Ivana
Paula havia encontrado o que informara-se ser uma machadinha de pedra polida,
fomos fazer o devido reconhecimento do material lítico, reconhecemos tratar-se
efetivamente de material indígena, uma machadinha de pedra polida, fizemos
outras pesquisas pelo Engenho Veneza e encontramos nos arredores da propriedade
uma pedra de amolar indígena, material polido do período neolítico, bem como
materiais provenientes do período histórico, elaborados em metal e que datamos
após nossos estudos com idade aproximada de 100 anos. Além desses materiais
líticos e históricos identificamos no dito Engenho Veneza vasto material
cerâmico que reconhecemos ser possivelmente de origem indígena.
Outros espaços importantes para as nossas pesquisas
arqueológicas foram: O sítio Poço do Dinheiro, o sítio Capim onde identificamos
pinturas rupestres, o sítio Olho d’água dos Cavalos onde identificamos uma
oficina lítica e o sítio Olho d’água da Igreja onde encontramos vestígios de
uma antiga oficina Lítica. Mas a maior descoberta viria ao fazermos pesquisa de
campo no sítio Santa Catarina. Fomos informados por uma das pesquisadoras do
grupo, a aluna-pesquisadora Ana Maria Nunes Silva que nessa localidade há 19 km
da sede do município vivia uma senhora e sua família em relativo isolamento, e
que essa senhora conhecia uma variedade extraordinária de plantas medicinais e
que com esse conhecimento chegava a sustentar sua própria família. Passamos
então a dirigir nossa atenção para o estudo dessa família e do espaço em que
estavam inseridos.
As provas arqueológicas da presença do homem Kariri
em Milagres-CE respondia já a nossa pergunta inicial sobre a presença dos
indígenas Kariris no Vale do Riacho dos Porcos, com efeito, sabíamos já algumas
coisas importantes: que o homem Kariri viveu no Riacho dos Porcos até meados do
século XIX; que dois grupos bem distintos passaram por aqui, inicialmente os
Tapuias, um grupo Kariri que habitou o sertão Paraibano e as extremas do Vale
do Riacho dos Porcos e posteriormente os Xocós, grupo surgido da fusão de
outros indígenas com Kariris; que não eram os Kariris canibais nem tampouco
antropófagos como relata a lenda da origem de Milagres-CE; que os vestígio,
pinturas rupestres, indústria lítica e restos cerâmicos encontrados no Vale do
Riacho dos Porcos comprovavam a presença dos Kariris nesse vale. Agora estávamos
diante da possibilidade de encontrar uma remanescente dos Kariris vivendo nos
arredores do vale.
Dona Dionísia Severo tem mais de setenta anos, mora
no sítio Santa Catarina, localidade Pau-dos-Ferros, 19 km de Milagres com seu
esposo Chico Hermenegildo, seu filho Cícero Dionísio e mais uma filha casada e
outro filho também casados, esses últimos vivem em locais específicos da
propriedade, mas sempre nos arredores da casa principal que pertence aos pais.
Dona Dionísia apresenta características semelhantes àquelas descritas por
Batista Aragão no seu livro “índios do Ceará” com relação aos Xocós, como foi
dito acima, o nome Xocó provém de uma ave pernalta que habita os charcos e
brejos do Cariri, o socó, essa ave com membros muito longos teria dado origem
ao termo Xocó porque esses indígenas apresentavam membros inferiores longos,
bem como o pescoço e o tronco. Dona Dionísia é alta, tronco comprido, membros
inferiores longos, pescoço também longo, cabeça pequena, possui uma distorção
lombar descrita por Thomás Pompeu Sobrinho, como uma ocorrência comum aos
subgrupos humanos, podíamos concluir que Dona Dionísia era descendente dos
Xocós? Seria Dona Dionísia uma remanescente dos indígenas que habitaram o Vale
do Riacho dos Porcos?
Para responder tais perguntas decidíamos mais uma
vez recorrer a Antropologia e a Etno-história da terceira geração dos Analles.
Pedimos a Dona Dionísia que contasse a origem de sua família de acordo com a
sua memória mais antiga. Assim ela nos relatou que a sua avó não era originária
de Milagres, sua avó viera de Santana do Cariri para Aurora e somente na década
de 1940 seu pai se fixara ali na localidade de Pau-dos-Ferros. Pedimos que se
detivesse na história de sua avó, então ela nos contou que a avó relatava que
sua mãe (a bisavó de Dona Dionísia) havia sido capturada, quer dizer, caçada
por fazendeiros na serra de Santana, isto é, Dona Dionísia afirmava que sua
bisavó era uma índia caçada nas matas com cães atrás e tudo. Foi levada
prisioneira para ser criada de fazendeiros, sua avó havia deixado a serra de
Santana e através da chapada do Araripe tinha ido viver em Aurora de onde na
década de 1940 seu pai viera com toda a família viver na terra dos Arruda da
Catirina onde ganharam o pedaço de terra onde hoje vivem. A ligação de Dona
Dionísia e sua família com a serra de Santana muito nos surpreendeu, pois tanto
Joaquim Alves, quanto Thomás Pompeu Sobrinho afirmam que é ali onde nasce o
Riacho dos Porcos que recebe água do Riacho Jardim que corre através daquela
serra, é aí que os mesmos estudiosos identificam como o espaço habitado pelos
Xocós.
Passamos a estudar o cotidiano e espaço habitado pela
família de Dona Dionísia Severo. A casa é de taipa, praticamente não há
divisórias nos cômodos, os animais de criação: porcos, galinhas, cabras,
jumentos, e os domésticos: gatos e cães convivem naturalmente com as pessoas, a
maioria deles dentro de casa sem nenhum empecilho. Os utensílios domésticos
usados são panelas, pratos e potes de barro, fogão a lenha, pilão, moinho e um
monjolo de madeira. O filho de Dona Dionísia, Cícero Dionísio é um indivíduo
tristonho, olhar vivo, mas extremamente calado, grandes traços indígenas, assim
como sua mãe, cabelos pretos lisos e segundo a mãe possui humor instável o que
o impede de casar logo como os outros. O chefe dessa família é um caboclo
alagoano, atarracado, mãos grossas, pele queimada, calado e sempre pelos cantos,
todos eles são agricultores, vivem do que tiram da terra, do que criam e das
ervas de Dona Dionísia.
O conhecimento de Dona Dionísia sobre ervas
curativas é vastíssimo: Conhece mais de 30 tipos de ervas, para inúmeras
doenças do corpo. Perguntamos a ela de onde provinham tais conhecimentos e
ficamos surpresos ao vê-la afirmar que esses conhecimentos foram transmitidos
para ela por certos caboclos que vivem nas matas. Ela nos referiu cerca de 12
caboclos bons, posto que haja dito que existiam outros tanto bons quanto maus.
Segundo Dona
Dionísia tudo começou quando ela passou a sentir problemas de saúde quando
estava grávida de sua filha, sem poder se curar sozinha procurou uma Cabocla
chamada Rita, lá na Santa Catirina e ela lhe ensinou como fazer para ficar boa,
fez o que a cabocla lhe ensinou, se curou, mas depois ouvia os caboclos da mata
lhe pedirem que ensinasse o que sabia para as outras pessoas também se curarem.
Assim, uma vez que soube que tinha uma pessoa doente no Podimirim, isto é, em
Milagres, foi até a mata, coletou umas cascas de gogoia que o caboclo João da
Mata e Santa Joana Guerreira lhe ensinaram que era boa pra doença daquela
pessoa, levou pra ela, ela ficou boa dos peitos logo.
Desde então sempre que alguém precisava os caboclos
ensinavam pra ela qual remédio pegar na mata e levar para curar o doente. Foi
assim que começou essa prática curativa de Dona Dionísia. Acabou então se
tornando a curandeira mais importante de Milagres, Dona Dionísia e suas ervas
curativas acabaram se tornando uma parte da cultura e das mentalidades de
Milagres.
Nosso passo seguinte foi buscar consolidar nossas
pesquisas e comprovar a ascendência indígena de Dona Dionísia e sua família. Ao
pesquisar sobre os relatos do viajante George Gardner, um escocês que percorreu
os sertões nordestinos e o Cariri cearense nos meados do século XIX,
encontramos uma passagem muito significativa para nossa pesquisa, Gardner
descrevia sua convivência por volta de 1840-1850 com os últimos indígenas
Kariris da região. Segundo ele, ao passar pelo Cariri por volta de 1853
encontrou ainda cerca de 63 indivíduos Kariris vivendo nos arredores dos
vilarejos e cidades da região, mas quando retornou por aqui cerca de sete anos
depois foi informado que esses haviam morrido durante a epidemia de cólera que
grassou na região, mas posteriormente
soube ele que esses indígenas haviam sido remanejados para outra região
do Ceará, descobriu-se mais tarde que os indígenas do Vale do Kariri haviam
sido remanejados pelo governo da província do Ceará para o sertão central.
José Ayrton no seu livro “Ceará, Nossa História”
localiza a presença de 116 indivíduos remanescentes dos Kariris no município de
Crateús no Sertão Central, então podemos concluir, que os Kariris não foram
extintos no século XIX como até então se acreditava, eles foram apenas
removidos de sua terra, isso aconteceu para facilitar a expropriação de suas
propriedades, pois como sabemos para dar amparo legal a esse roubo das terras
indígenas o governo da província do Ceará declarou na década de 1860 não haver
mais índios no Ceará. Recentemente uma pesquisadora de São Paulo em parceria
com a estudiosa Roseane Limaverde da Fundação Casa Grande de Nova Olinda-CE,
identificou vivendo no Sítio Baixa Dantas no Crato uma família composta por mais
de quarenta membros que são remanescentes dos Kariris. Podemos concluir então
que Dona Dionísia e sua família são legítimos remanescentes dos Kariris ainda
presentes no Vale do Riacho dos Porcos, e fazemos isso baseados em nossos
estudos antropológicos, bem como em nossas investigações de Etno-História e das
mentalidades.
Assim, mediante nossas pesquisas antropológicas e
arqueológicas pudemos identificar a presença de vestígios do homem Kariri em
Milagres-CE e constatar que Tapuias e Xocós habitaram O Vale do Riacho dos
Porcos antes da Colonização e durante esta. Verificamos a falsificabilidade da
lenda da origem de Milagres, constatando que não eram os indígenas Kariris nem
canibais nem tampouco praticantes dos rituais antropofágicos.
Assim pudemos responder nossas três indagações
iniciais e constatamos ser possível escrever a história indígena do Vale do
Riacho dos Porcos sem recorrer a lendas ou discursos sem sustentação científica
que procurem apenas criar uma falsa imagem dos indígenas desse vale. Podemos
concluir que a história da cidade de Milagres pode ser agora escrita com a
segurança de um método histórico confiável, em nosso caso o da terceira geração
dos Analles, a etno-história e a história das mentalidades que nos acompanhou
durantes esse início de percurso.